Weskley da Silva Cotrim
Engenheiro de Alimentos
Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos
Coordenador do Curso de Engenharia de Alimentos – FAZU
*Texto publicado originalmente na Revista da ABCZ, nº60, p. 52-55, 2011.
1 INTRODUÇÃO
Carne pode ser definida como o produto resultante das contínuas transformações que ocorrem no músculo após o abate do animal. A carne é um alimento altamente nutritivo, possuindo proteínas de alto valor biológico, minerais, vitaminas, em particular aquelas do complexo B (Berges, 1999). Embora o conceito de qualidade seja amplo, referindo-se às características do produto que atendem as necessidades do consumidor, o conceito de qualidade de carne envolve uma série de fatores, dentre eles os que mais se destacam na avaliação do consumidor são o flavor e a cor.
A cor da carne é influenciada pela quantidade e estado físico da mioglobina (Swatland, 2004). A oximioglobina é o pigmento responsável pela cor vermelho intenso observada em carnes bovinas (Hayes et al., 2009). A oxidação do pigmento oximioglobina à metamioglobina, pigmento marrom, leva a rejeição do produto, uma vez que o consumidor associa a carne escura como sendo proveniente de animais velhos ou exposta à venda por muito tempo (Fletcher, 2002).
Figura 1. Cores correspondentes aos pigmentos Mioglobina, Oximioglobina, Carboximioglobina, Nitrosomioglobina e Metamioglobina (Fonte: AHN, 2003).
Por outro lado, o flavor da carne é altamente influenciado pelo nível de oxidação dos lipídeos presentes na carne. O nível de oxidação na carne é influenciado pelo teor de gordura, principalmente pelo teor de ácidos graxos poliinsaturados, e pela presença de elementos pró-oxidantes, tais como o ferro presente nos pigmentos da carne. A oxidação das gorduras presentes na carne promove a formação de compostos voláteis, os quais são responsáveis por odores anormais, levando à rejeição das carnes, além de produção de compostos tóxicos ou mutagênicos (Berges, 1999; Soares et al., 2009). Além disso, a oxidação das gorduras leva a formação de radicais livres, os quais promovem a oxidação de outras biomoléculas, tais como a molécula de mioglobina, responsável pela cor da carne (Hayes et al., 2009).
Quando estocada sob refrigeração por longos períodos, a cor da carne bovina perde estabilidade, levando ao surgimento de pigmentos escuros, comprometendo a aceitação da mesma. Durante esse processo, a fina camada de oximioglobina tem sua espessura reduzida, enquanto o teor de metamioglobina tende a aumentar. Isso acontece especialmente em carnes embaladas, onde as baixas pressões de oxigênio favorecem a formação do pigmento metamioglobina (Renerre e Labas, 1987).
Assim, o uso de antioxidantes se apresenta como alternativa na prevenção da oxidação em produtos cárneos, por retardar os processos de autoxidação ou por inibir a formação dos radicais livres durante o passo de iniciação da reação de oxidação, ou ainda pela interrupção da etapa de propagação, protegendo os lipídeos presentes na carne e estabilizando as moléculas de mioglobina (O’grady et al., 1996). Dessa forma, o processo de oxidação de gorduras e seus efeitos sobre o flavor e a cor da carne e produtos derivados constitui-se num desafio para a indústria, o qual por muito tempo tem sido controlado pelo uso de antioxidantes sintéticos. Porém, nos últimos anos, tem crescido a pressão por parte do consumidor para que a indústria adote o uso de aditivos naturais em substituição aos sintéticos (Hayes et al., 2009). Diante desse novo cenário, um esforço conjunto entre indústria, academias e institutos de pesquisa tem sido empregado na busca por compostos naturais com propriedades antioxidantes, com potencial para substituir aqueles sintéticos, na prevenção dos processos oxidativos em carnes e derivados.
2 ANTIOXIDANTES NATURAIS
Antioxidantes são utilizados nos alimentos para retardarem ou inibirem a oxidação de lipídeos e outras biomoléculas. Embora utilizados em baixas concentrações em relação ao teor de lipídeos e proteínas, sua ação é significativa na prevenção dos processos oxidativos. Ao longo dos anos alguns antioxidantes sintéticos tem sido utilizados com bastante eficiência. Entretanto, nos últimos anos tem crescido a pressão para que a indústria de alimentos substitua o uso de aditivos sintéticos por aditivos naturais. É nesse novo cenário que indústria e academia tem unido esforços para encontrar substitutos naturais para os antioxidantes existentes. O candidato a antioxidante deve preencher alguns requisitos básicos, dentre eles, ser não tóxico, estável, efetivo a baixas concentrações, barato e não produzir alterações no flavor, cor ou textura dos alimentos (Choe e Min, 2009).
Dentro desse contexto, são apresentados a seguir quatro antioxidantes naturais com potencial para uso em produtos cárneos.
2.1 LUTEÍNA
A Luteína é pigmento carotenóide amarelo presente em vegetais e na gema do ovo, sendo um dos mais importantes antioxidantes responsáveis pela saúde dos olhos humanos. O milho apresenta-se como a principal fonte de luteína (Canovas et al., 2009). A atividade antioxidante da luteína baseia-se na sua habilidade de se ligar às moléculas de oxigênio singlete, impedindo assim a iniciação dos processos oxidativos (Hayes et al., 2009).
Estudo com carne bovina demonstrou que doses a partir de 200 µg/mL apresentaram potente ação preventiva no desenvolvimento do malonaldeido, composto indicador do processo oxidativo de lipídeos. Embora doses mais altas tenham apresentado tendência de aumento na proteção contra oxidação dos lipídeos, não foi possível afirmar que essa tendência se manteria. Vale ressaltar que, amostras tratadas com luteína apresentaram redução nos níveis de malonaldeido da ordem de 45% após 24 h (Hayes et al., 2009). Ainda no mesmo estudo, não foi observada ação da luteína nos níveis de oximioglobina após 24 h em relação ao grupo controle. Apesar de potente ação antioxidante, a luteína parece não exercer efeito significativo na estabilidade da cor da carne bovina.
2.2 ÁCIDO ELÁGICO
O ácido elágico é um polifenol com propriedades antioxidantes, encontrado numa grande variedade de vegetais, destacando-se a uva, morango e as nozes (Bianchi e Antunes, 1999). O ácido elágico apresenta em sua estrutura quatro grupos fenólicos, com uma variedade de atividades biológicas, incluindo função antioxidante (Ezdihar et al., 2006).
O ácido elágico, assim como a luteína, apresenta boa propriedade antioxidante, prevenido a oxidação lipídica, tendo sido observado redução na produção de malonaldeído da ordem de 85%. O ácido elágico apresenta ainda propriedades protetoras para a cor da carne bovina, tendo mantido os níveis de oximioglobina, após 24 h de estocagem sob refrigeração, nos mesmos níveis observados na carne fresca. Quando comparadas com as amostras tratadas com o ácido elágico, as amostras controle apresentaram redução nos níveis de oximioglobina da ordem de 62%, o que evidencia a ação desse composto na estabilidade da cor da carne bovina (Hayes et al., 2009).
2.3 SESAMOL
O sesamol é um composto orgânico natural, presente no óleo de sésamo. O sesamol apresenta alta estabilidade numa ampla faixa de pH, solubilidade tanto em água quanto em óleo e alta resistência térmica (Joshi et al., 2005). Além disso, o sesamol apresenta atividade anticarcinogenica e inibe a aterosclerose (Decker, 1995).
Dentre os antioxidantes naturais, o sesamol é o que apresenta maior atividade, sendo que foi observada redução da ordem de 95% nos níveis de malonaldeído após 24 h de estocagem, quando comparados com a amostra controle. Entretanto, apesar do grande efeito protetor na prevenção da oxidação lipídica, o sesamol não apresentou efeito protetor sobre a estabilidade da cor, sendo que os níveis de oximioglobina nas amostras tratadas com o sesamol apresentaram níveis similares ou inferiores a aqueles observados na amostra controle (Hayes et al., 2009).
2.4 EXTRATO DE FOLHAS DE OLIVEIRA
O extrato de folhas de oliveira apresenta ação antioxidante, antimicrobiana, antiviral e antiinflamatória. Além disso, também atua protegendo as lipoproteínas de baixa densidade e impedindo a oxidação lipídica (Khayyal et al., 2002; Bouaziz et al., 2008).
Assim como o sesamol e o ácido elágico, o extrato de folha de oliveira apresenta-se como alternativa para prevenção da oxidação lipídica, além de contribuir significativamente para a prevenção da oxidação da oximioglobina a metamioglobina. Estudo realizado por Heyes et al. (2009), apresentou efeito antioxidante similar àqueles observados para o ácido elágico e sesamol. A estabilidade de cor da carne bovina apresentou-se levemente inferior ao observado para as amostras tratadas com o ácido elágico, porém ainda suficiente para manutenção da cor vermelho brilhante característica da carne fresca.
3 CONCLUSÃO
Cada vez mais a indústria de carnes tem apresentado uma maior variedade de produtos cárneos processados. Esse aumento na variedade de produtos processados traz consigo um aumento na demanda por aditivos que permitam maior período de conservação sem que haja alteração das propriedades organolépticas dos produtos cárneos. Por outro lado, cresce a pressão do consumidor para que a indústria reduza ou mesmo elimine o uso de aditivos sintéticos, substituindo os mesmos por aditivos naturais. Dentro desse contexto, os aditivos naturais apresentam-se como uma alternativa viável, atendendo ao mesmo tempo os anseios do consumidor e as necessidades da indústria da carne.
4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Tags:Antioxidantes naturais, Carnes, Cor, Oxidação



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